Quando alguém pensa em começar a fazer TVDE, uma das primeiras perguntas que aparece é esta:
Vale a pena fazer TVDE em part-time?
A ideia até parece simples. Temos algumas horas livres, ligamos a Uber ou a Bolt, fazemos umas viagens e ganhamos algum dinheiro extra.
Só que, na realidade, não é assim tão simples.
O dinheiro que aparece na aplicação no fim do dia não é o dinheiro que realmente ganhámos. Há eletricidade ou combustível, pneus, manutenção, seguro, prestação do carro, impostos e outras despesas.
E há uma coisa que, para mim, é cada vez mais importante: o tempo que passamos a trabalhar também conta.
Faço TVDE desde fevereiro de 2023, principalmente em Lisboa, e ao longo deste tempo fui percebendo que não basta olhar para a faturação.
É preciso perceber quanto sobra e quanto tempo foi preciso gastar para conseguir esse dinheiro.
O que significa fazer TVDE em part-time?
Na prática, é usar o TVDE como uma atividade complementar e não depender dele como principal fonte de rendimento.
Mas "part-time" pode significar muitas coisas.
Pode ser fazer algumas horas ao fim de semana. Pode ser trabalhar duas ou três noites durante a semana. Pode ser fazer dois ou três dias por semana.
Cada pessoa organiza-se como pode.
Há quem tenha um emprego durante o dia e faça TVDE à noite. Há quem só tenha tempo ao sábado e domingo. E há quem tenha alguns dias livres durante a semana.
Não há uma maneira certa de fazer isto.
Também não há um número mágico de horas que transforme o TVDE em part-time. Depende daquilo que cada pessoa tem disponível e, principalmente, daquilo que quer conseguir com o trabalho.
O lado bom de fazer TVDE em part-time
A maior vantagem, para mim, é a flexibilidade.
Não temos necessariamente um horário fixo. Podemos escolher quando queremos trabalhar e tentar encaixar o TVDE no resto da nossa vida.
Se temos outro emprego, podemos fazer algumas horas depois do trabalho.
Se só temos o fim de semana livre, podemos aproveitar esses dias.
E se numa determinada semana não temos disponibilidade, simplesmente não trabalhamos.
Para quem procura apenas algum dinheiro extra, esta liberdade pode ser bastante interessante.
Também podemos tentar escolher as horas em que achamos que vale mais a pena estar na rua.
Se tenho poucas horas disponíveis, prefiro escolher essas horas com algum cuidado do que simplesmente ligar a aplicação a qualquer hora.
Mas há custos que não aparecem logo nas contas
Aqui é que acho que muita gente se engana quando começa a fazer contas ao TVDE.
É fácil pensar:
"Se fizer 100 € hoje e trabalhar tantos dias por mês, vou ganhar X."
Mas os 100 € não são limpos.
O carro tem despesas.
Se for um carro a gasolina ou gasóleo, temos combustível. Se for elétrico, temos eletricidade.
Depois temos pneus, manutenção, seguro, impostos e outras despesas.
Se o carro estiver a crédito ou leasing, temos também essa prestação.
E há ainda uma coisa que é fácil esquecer: o carro está a ser usado e está a envelhecer mais depressa.
Quanto mais quilómetros fazemos, mais desgaste existe.
Um pneu que hoje está novo, amanhã não está. Uma revisão que hoje ainda não é necessária, mais tarde vai ser. E o carro também vai perdendo valor.
Tudo isso faz parte do custo de fazer TVDE.
Também há tempo em que não estamos a ganhar
Outra coisa que é fácil esquecer é o tempo parado.
Podemos estar online e não receber nenhuma viagem.
Podemos acabar uma viagem e ficar à espera da próxima.
Podemos andar de uma zona para outra à procura de trabalho.
E também podemos fazer quilómetros sem passageiro.
Tudo isto faz parte do trabalho, mesmo que não apareça como uma viagem na aplicação.
Por isso, eu não gosto muito de olhar apenas para o número de quilómetros ou para o número de viagens.
Para mim, é mais importante saber:
Quanto tempo estive a trabalhar e quanto consegui fazer nesse tempo?
Então, quanto é que se pode ganhar?
Esta é provavelmente a pergunta que mais interessa a quem está a pensar começar.
E a resposta mais honesta é: depende muito.
Não vou dizer que um motorista pode ganhar X euros por mês porque isso pode ser completamente diferente de pessoa para pessoa.
Há quem tenha um carro pago. Há quem tenha uma prestação alta.
Há quem trabalhe muitas horas. Há quem faça apenas algumas.
Há quem consiga trabalhar em horários com bastante movimento e há quem tenha disponibilidade apenas em horas mais fracas.
Também há diferenças entre cidades e zonas.
Por isso, não me parece correto pegar num valor e apresentá-lo como se fosse aquilo que qualquer pessoa pode ganhar.
Faturar não é o mesmo que ganhar
Imaginemos um exemplo simples.
Dois motoristas fazem 120 €.
Um conseguiu esse valor em seis horas.
O outro precisou de dez horas.
A faturação foi igual, mas o resultado por hora foi bastante diferente.
E ainda temos de descontar os custos.
É por isso que acho mais interessante olhar para o rendimento por hora do que apenas para o valor faturado.
Uma boa faturação num dia pode não ser assim tão boa se foram precisas muitas horas para lá chegar.
Part-time ou full-time?
Não acho que exista uma resposta certa para toda a gente.
Para algumas pessoas, o part-time pode ser exatamente o que procuram.
Se já têm outro emprego e querem ganhar algum dinheiro extra, podem fazer algumas horas por semana sem depender do TVDE para pagar as despesas todas.
Nesse caso, o objetivo é complementar o rendimento.
Para quem quer viver apenas do TVDE, a situação é diferente.
É preciso conseguir faturar o suficiente para pagar o carro, os restantes custos da atividade e ainda ter dinheiro para as despesas pessoais.
É uma responsabilidade completamente diferente.
Por isso, não acho que faça sentido dizer que fazer TVDE em part-time é melhor ou pior do que fazer full-time.
São situações diferentes.
Escolher bem as horas pode fazer diferença
Se temos poucas horas disponíveis, convém pensar bem em quando vamos trabalhar.
As horas de ponta, algumas noites, fins de semana, eventos e outros períodos com mais movimento podem ser interessantes.
Mas também não existe uma regra que funcione sempre.
Mais movimento pode significar mais viagens, mas também pode significar mais trânsito.
Uma zona com muitos pedidos pode estar completamente parada.
E aquilo que funcionou bem numa sexta-feira pode não funcionar da mesma maneira na sexta seguinte.
Com o tempo, vamos percebendo melhor quais são os horários e zonas que funcionam para nós.
É uma questão de experimentar, acompanhar os resultados e tirar as nossas próprias conclusões.
A minha experiência no TVDE
Eu faço TVDE desde fevereiro de 2023 e trabalho principalmente em Lisboa.
Uso a Uber e a Bolt e, normalmente, quando faço um dia completo, passo entre oito e dez horas na estrada.
Quando comecei, também olhava muito para a faturação.
Hoje continuo a olhar, claro, mas dou muito mais importância ao tempo que foi preciso para conseguir aquele dinheiro.
O meu objetivo pessoal é conseguir uma faturação diária que me deixe satisfeito sem ter de transformar todos os dias numa jornada demasiado longa.
Neste momento, tento ter como referência cerca de 150 a 160 € por dia.
Mas isto é importante: é o meu objetivo pessoal.
Não significa que seja aquilo que um motorista TVDE vai ganhar. Não significa sequer que eu consiga esse valor todos os dias.
É simplesmente o valor que tenho como referência para o meu próprio trabalho.
O carro que uso também conta
Eu trabalho com um Tesla Model 3 Performance.
Gosto do carro e é o carro que tenho, mas não vou dizer que é a escolha mais económica para fazer TVDE.
A versão Performance é mais potente e também gasta mais do que as outras versões.
Se alguém me perguntasse hoje qual Tesla escolheria especificamente para começar a fazer TVDE, diria que um Model 3 Standard é suficiente.
Não é preciso ter um Performance para fazer este trabalho.
Aliás, quando estamos a comprar um carro para trabalhar, faz muito mais sentido olhar para os custos de utilização do que escolher simplesmente a versão mais potente.
No meu caso, a realidade é outra. É o carro que tenho e é com ele que trabalho.
O tempo vale mais do que os quilómetros
Há uma coisa que fui percebendo ao longo destes anos.
Para mim, o tempo é mais limitado do que os quilómetros do carro.
O carro pode fazer mais 100 ou 200 quilómetros.
Eu não consigo acrescentar mais horas ao meu dia.
Por isso, preocupo-me bastante com o valor que consigo fazer por hora.
Não quero dizer com isto que os quilómetros não interessam. Claro que interessam, porque representam desgaste e custos.
Mas, para mim, faz mais sentido perguntar:
"Quanto consegui fazer nestas oito horas?"
do que simplesmente:
"Quantos quilómetros fiz hoje?"
É esta forma de olhar para o trabalho que tenho atualmente.
Então, vale a pena fazer TVDE em part-time?
Pode valer.
Mas depende muito da situação de cada pessoa.
Se já tens outro trabalho, tens algumas horas livres e procuras uma forma de ganhar algum dinheiro extra, pode fazer sentido.
Se tens de comprar um carro só para fazer TVDE, tens uma prestação elevada e precisas de trabalhar muitas horas para chegar ao valor que procuras, as contas já são outras.
Antes de começar, eu pensaria em algumas coisas:
- Quanto me vai custar o carro?
- Quanto vou gastar em eletricidade ou combustível?
- Quanto vou gastar em pneus e manutenção?
- Quanto pago de seguro?
- Tenho uma prestação mensal?
- Quantas horas tenho realmente disponíveis?
- Em que horários consigo trabalhar?
- Quanto preciso de faturar por mês?
- Quanto quero ganhar?
- Quanto consigo fazer, em média, por hora?
Esta última pergunta, para mim, é muito importante.
Não tires conclusões por causa de um dia
No TVDE podemos ter um dia muito bom e pensar que descobrimos a fórmula perfeita.
Também podemos ter um dia péssimo e pensar que aquilo não vale a pena.
Nenhuma das duas coisas diz grande coisa sozinha.
É preciso olhar para vários dias.
Perceber quanto faturámos, quantas horas trabalhámos, quanto gastámos e quanto acabou realmente por sobrar.
Com o tempo, começamos a perceber melhor o que funciona para nós.
E isso é muito mais útil do que ouvir alguém dizer que "numa sexta-feira fez X euros".
Conclusão
Fazer TVDE em part-time pode ser uma boa forma de conseguir algum rendimento extra.
A flexibilidade é uma vantagem grande, principalmente para quem já tem outro trabalho ou simplesmente não quer estar todos os dias na estrada.
Mas é preciso fazer bem as contas.
Não basta olhar para o valor que aparece na aplicação.
É preciso pensar no carro, na eletricidade ou combustível, na manutenção, nos pneus, no seguro, nas prestações e em todas as outras despesas.
E depois há o tempo.
Desde que comecei a fazer TVDE, em 2023, comecei a dar cada vez mais importância a isso.
No final, não quero apenas saber quanto faturei.
Quero saber quanto consegui fazer pelo meu tempo.
Por isso, se estás a pensar fazer TVDE algumas horas por semana, não te prendas apenas à pergunta:
"Quanto posso faturar?"
Faz as contas ao teu carro, aos teus custos e às horas que tens disponíveis.
E depois vê quanto realmente sobra.
Porque, no fim de contas, o dinheiro é importante, mas o nosso tempo também é.