Quando se fala em carro para fazer TVDE, normalmente pensamos em duas coisas: fiabilidade e economia.
O objetivo é simples. Ter um carro que consuma pouco, seja confortável, tenha custos controlados e permita passar muitas horas na estrada sem dar problemas.
Por isso, quando digo que faço TVDE num Tesla Model 3 Performance, a reação de muita gente é quase sempre a mesma:
“Um Performance para fazer TVDE? Porquê?”
É uma pergunta perfeitamente legítima.
O Model 3 Performance não foi pensado especificamente para ser um carro de trabalho. É um carro elétrico rápido, tecnológico e com uma componente claramente desportiva.
Mas é precisamente por isso que, depois de algum tempo a trabalhar diariamente com ele, consigo responder à pergunta que interessa:
Será que um Tesla Model 3 Performance faz sentido como carro de TVDE?
A resposta curta é: para mim, sim. Mas não necessariamente pelas razões que estás a imaginar.
Porque escolhi um Tesla Model 3 Performance para TVDE
Não escolhi o carro apenas por ser elétrico.
Também não o escolhi porque precisava de um carro extremamente rápido para fazer TVDE. Na realidade, a potência do Performance é provavelmente uma das características menos importantes quando estou a trabalhar.
O que me interessava era ter um carro que conseguisse juntar algumas coisas que considero importantes para passar muitas horas na estrada:
- conforto;
- tecnologia;
- boa experiência para o passageiro;
- custos de utilização controlados;
- capacidade para trabalhar diariamente;
- e, acima de tudo, gostar do carro que estou a conduzir.
Porque existe uma diferença entre ter um carro para trabalhar e passar praticamente o dia inteiro dentro desse carro.
No meu caso, como motorista TVDE em Lisboa, posso passar muitas horas seguidas ao volante. E quando isso acontece, a relação que temos com o carro começa a ser bastante importante.
Não é apenas uma ferramenta.
É o meu local de trabalho durante grande parte do dia.
O Model 3 Performance é bom para fazer TVDE?
Depois de o usar na estrada, diria que sim.
Aliás, uma das coisas que mais gosto é precisamente a sensação de conduzir um carro que continua a ser agradável mesmo depois de várias horas de trabalho.
A condução de um elétrico é muito diferente daquilo que encontramos num carro tradicional com motor de combustão.
Não existe a mesma vibração do motor, não existem mudanças de velocidade e a resposta do acelerador é imediata.
No trânsito de Lisboa, isso acaba por ser bastante agradável.
E existe outro detalhe importante: o silêncio.
Quando passamos muitas horas dentro de um carro, pequenas coisas começam a fazer diferença. Um carro silencioso e suave torna o trabalho menos cansativo.
Não significa que depois de dez horas na estrada não esteja cansado.
Significa apenas que o carro não acrescenta tanto desgaste à experiência.
E a autonomia?
Esta é provavelmente uma das primeiras perguntas que qualquer pessoa faz quando pensa num Tesla para TVDE.
No meu caso, já tive o Model 3 Performance a indicar cerca de 408 km de autonomia com a bateria a 100%.
Mas existe uma diferença importante entre olhar para a autonomia apresentada no carro e trabalhar efetivamente com ele.
No TVDE, não estamos simplesmente a fazer uma viagem de A para B.
Estamos constantemente a parar, arrancar, circular em cidade, utilizar climatização, apanhar trânsito, fazer viagens mais longas e, muitas vezes, andar sem saber exatamente onde vamos terminar.
Por isso, para mim, a autonomia nunca deve ser analisada apenas pelo número apresentado no ecrã.
O que interessa é perceber como é que o carro se comporta durante um dia real de trabalho.
E aqui entra uma das maiores mudanças de mentalidade quando passamos para um elétrico:
O carregamento passa a fazer parte da rotina.
No meu caso, faço carregamento em casa e, quando necessário, utilizo também carregamento público.
Já utilizei a rede myAtlante, por exemplo, com pagamento através da Revolut, e tenho também procurado aproveitar mais os carregadores públicos do Continente.
Não encaro o carregamento como uma coisa extraordinária.
É simplesmente mais uma parte da gestão do dia de trabalho.
Quanto gasto em eletricidade?
Aqui prefiro ser muito direto.
Não vou inventar uma média mensal ou um custo por quilómetro que não tenha sido medido de forma consistente.
É muito fácil encontrar na Internet contas perfeitas sobre quanto custa andar num Tesla.
Mas o trabalho TVDE não é uma utilização normal do carro.
O custo depende de onde carregamos, quanto carregamos, do preço da eletricidade, da utilização do carro e dos quilómetros feitos.
Tenho, no entanto, alguns dias concretos registados.
Num deles, por exemplo, fiz:
157 € de faturação em 9h35 de trabalho, 18 viagens e 331 km.
Nesse dia, o custo de carregamento registado foi de 22,39 €.
É este tipo de número real que considero mais interessante do que uma estimativa teórica.
Porque é assim que um motorista deve olhar para o negócio:
quanto entrou, quanto tempo trabalhei, quantos quilómetros fiz e quanto gastei.
E não apenas:
“Quanto consome o Tesla?”
O que o Tesla muda na forma de trabalhar?
Para mim, uma das maiores mudanças não está sequer no carro.
Está na forma de pensar o trabalho.
Como motorista TVDE, procuro cada vez mais olhar para o rendimento por hora, e não apenas para os quilómetros.
O tempo é limitado.
Os quilómetros do carro não são o único recurso que temos de gerir.
Se fizer uma viagem que parece interessante em termos de €/km, mas que me deixa demasiado tempo parado ou numa zona onde depois não consigo bons serviços, pode não ser uma boa viagem.
Por isso, quando olho para o Tesla como ferramenta de trabalho, não quero simplesmente saber se ele é económico.
Quero saber se o conjunto carro + custos + tempo + rendimento faz sentido.
É aí que começa a verdadeira resposta à pergunta “vale a pena?”.
E os passageiros?
Aqui o Tesla tem uma vantagem bastante evidente.
Um Model 3 é diferente daquilo que muitos passageiros estão habituados a encontrar num TVDE.
O interior é minimalista, o ambiente é silencioso e a condução é bastante suave.
E depois existe a aceleração.
Não é uma coisa que seja particularmente útil para fazer TVDE, mas é uma característica do Performance e faz parte da experiência de quem entra no carro.
Claro que, quando estou a trabalhar, não ando a explorar os 0-100 km/h em cada semáforo.
O objetivo é transportar o passageiro em segurança e proporcionar uma viagem confortável.
Mas é engraçado perceber que, para quem entra no carro, o Performance pode transmitir uma sensação diferente de estar num carro normal de trabalho.
Então para que serve o “Performance”?
Esta é provavelmente a parte mais fácil de responder.
Não preciso dele para fazer TVDE.
Um Model 3 menos potente faria o trabalho.
Provavelmente seria até uma escolha mais racional para quem está exclusivamente preocupado com a rentabilidade.
Mas existe uma diferença entre escolher o carro mais racional e escolher o carro que queremos realmente conduzir durante muitas horas.
Eu gosto de conduzir.
E se vou passar uma parte significativa da minha vida dentro de um carro, também valorizo isso.
O Performance dá-me uma coisa que não aparece numa folha de Excel:
prazer de condução.
E isso também tem valor.
Nem tudo é perfeito
Seria fácil transformar este artigo numa defesa do Tesla.
Não é essa a ideia.
O carro também tem coisas que, para quem faz TVDE, podem ser menos interessantes.
Uma delas é precisamente aquilo que acontece com qualquer carro utilizado durante muitas horas: o conforto depende muito das condições de utilização.
No meu caso, por exemplo, os bancos em pele podem tornar-se bastante quentes e provocar transpiração, especialmente nos dias mais quentes.
Parece um detalhe pequeno.
Depois de passar horas sentado, deixa de ser.
Também existe a questão do carregamento.
Embora para mim faça parte da rotina, é preciso ter uma estratégia.
Quem compra um elétrico para trabalhar sem pensar previamente onde vai carregar, quando vai carregar e quanto lhe vai custar pode acabar frustrado.
Um carro a combustão permite uma abordagem muito mais simples: aparece uma luz, entra-se numa estação de serviço, abastece-se e continua-se.
Com um elétrico, é preciso planear um pouco mais.
E a manutenção?
Outra vantagem de um carro elétrico é a simplicidade mecânica comparativamente com um carro tradicional.
Não temos o mesmo conjunto de componentes associado a um motor de combustão, como óleo do motor, filtros de óleo, embraiagem ou caixa de velocidades convencional.
Mas isso não significa que um Tesla seja um carro sem custos.
Pneus, travões, suspensão, desgaste normal e todos os outros componentes continuam a existir.
E num Model 3 Performance há ainda outro ponto a considerar:
é um carro potente.
Se começarmos a utilizar frequentemente aquilo que o Performance tem para oferecer, podemos naturalmente aumentar o desgaste de determinados componentes.
Por isso, fazer TVDE com um Performance exige alguma disciplina.
O facto de o carro conseguir andar muito depressa não significa que seja boa ideia conduzi-lo dessa forma constantemente.
Será que um Tesla Performance é uma boa escolha financeira para TVDE?
Aqui é onde eu faria a distinção mais importante.
Se alguém me perguntar:
“Qual é o carro mais racional para maximizar a rentabilidade no TVDE?”
Eu não responderia automaticamente “Tesla Model 3 Performance”.
Há outros carros que podem fazer mais sentido dependendo do preço de aquisição, financiamento, consumo, manutenção, utilização e condições de carregamento.
Mas se a pergunta for:
“É possível trabalhar diariamente em TVDE com um Model 3 Performance e ter uma utilização que faça sentido?”
A minha experiência diz que sim.
No meu caso, o carro é uma ferramenta de trabalho, mas também é um carro que gosto de conduzir.
E essa combinação pesa na decisão.
O maior erro seria comprar um Tesla só porque é elétrico
Esta é provavelmente a conclusão mais importante que tiro da minha experiência.
Comprar um carro elétrico para TVDE apenas porque “gasta menos” é uma decisão demasiado simples.
É preciso fazer as contas ao conjunto.
Quanto custa o carro?
Quanto custa o financiamento?
Onde vais carregar?
Quanto pagas por kWh?
Quantos quilómetros vais fazer?
Quanto tempo vais perder a carregar?
Quanto consegues faturar por hora?
Que plataformas vais utilizar?
E, acima de tudo, qual é a tua realidade enquanto motorista?
Um carro pode ser excelente para um motorista e uma péssima escolha para outro.
Então, Tesla Model 3 Performance para TVDE: vale a pena?
Para mim, vale.
Mas não porque seja necessariamente o carro mais económico ou porque o Performance seja indispensável para trabalhar.
Vale porque consigo conciliar duas coisas:
um carro que funciona como ferramenta de trabalho e um carro que continuo a gostar de conduzir.
No TVDE, passo muitas horas dentro do carro.
Por isso, para mim, não basta olhar para a folha de custos.
Também tenho de conseguir imaginar-me a fazer milhares de quilómetros e muitas horas de trabalho naquele carro.
E continuo a gostar de estar ao volante do Model 3 Performance.
É esse o verdadeiro motivo pelo qual, olhando para a minha experiência, considero que fez sentido.
Mas se estás a pensar comprar um Tesla especificamente para começar no TVDE, a minha recomendação seria outra:
faz primeiro as contas ao negócio e só depois escolhas o carro.
O Tesla pode ser uma excelente ferramenta.
Mas o carro, por si só, não torna um dia de TVDE rentável.
Quem faz isso é a forma como o motorista gere o tempo, as viagens, os custos e o próprio trabalho.
E essa é uma aprendizagem que nenhum carro consegue fazer por nós.