TVDE

Ser motorista TVDE em Lisboa: o que aprendi na estrada

10 de setembro de 2026

Ser motorista TVDE em Lisboa parece, à primeira vista, uma coisa simples: ligar as aplicações, aceitar viagens e conduzir.

Na realidade, não é assim tão simples.

Ao longo do tempo percebi que conduzir é apenas uma parte do trabalho. O resto está na capacidade de tomar decisões constantemente: quando trabalhar, que viagens aceitar, quando mudar de aplicação, quando parar, quanto vale realmente uma hora do nosso tempo e, talvez mais importante, quando perceber que uma determinada estratégia deixou de funcionar.

É isso que a estrada me tem ensinado.

O carro é uma ferramenta de trabalho

No meu caso, conduzo um Tesla Model 3 Performance. É um carro de que gosto, mas trabalhar com um elétrico também obriga a pensar de forma diferente.

A autonomia, o carregamento e os quilómetros deixam de ser apenas questões pessoais. Passam a fazer parte da gestão do trabalho.

Uma viagem não significa apenas o valor que aparece no ecrã.

Também significa tempo, quilómetros, energia e a possibilidade de essa viagem nos colocar num local onde será mais difícil conseguir a próxima.

Foi uma das primeiras coisas que comecei a perceber: o valor de uma viagem não pode ser analisado isoladamente.

Comecei por olhar demasiado para os quilómetros

Durante algum tempo, uma das minhas referências era o valor por quilómetro.

Fazia sentido. Afinal, quanto mais quilómetros fazemos, maior é o desgaste do carro e maiores são os custos associados.

Mas a experiência acabou por me mostrar outra coisa.

O meu recurso mais limitado não são os quilómetros. É o tempo.

O carro pode fazer muitos quilómetros. Eu não posso aumentar o número de horas que tenho disponíveis no dia.

Foi aí que comecei a dar cada vez mais importância ao valor por hora.

Uma viagem que paga razoavelmente bem por quilómetro pode não ser assim tão interessante se consumir demasiado tempo. Por outro lado, uma viagem com mais quilómetros pode fazer sentido se o valor e o tempo forem equilibrados.

Não existe uma fórmula perfeita para todas as situações. Existe, isso sim, uma necessidade de olhar para o trabalho como um todo.

Uber e Bolt: não basta ter as duas aplicações ligadas

Trabalho com Uber e Bolt e, durante muito tempo, também fui aprendendo a gerir a relação entre as duas.

Ter as duas aplicações disponíveis dá-nos mais possibilidades, mas não significa que devamos aceitar tudo o que aparece.

Uma das regras que fui criando para mim próprio é simples: quando aceito uma viagem numa plataforma, a outra deixa de ser relevante naquele momento.

O objetivo não é estar constantemente a correr atrás da próxima viagem.

É tentar fazer com que o tempo que estou na estrada seja utilizado da melhor forma possível.

E isto muda completamente a forma como se olha para as aplicações.

Aprendi a definir uma referência para o meu dia

Com o tempo comecei a trabalhar com uma referência aproximada de 150 € por dia, normalmente pensando num dia de cerca de 10 horas.

Não significa que todos os dias sejam iguais. Nem significa que seja possível garantir esse valor.

Há dias bons, dias maus e períodos em que o mercado simplesmente não responde da mesma forma.

Mas ter uma referência ajuda-me a perceber onde estou.

Por exemplo, já tive um dia em que fiz 157 € em 9 horas e 35 minutos, com 18 viagens e 331 km. Nesse dia, os valores vieram das duas plataformas: 90,51 € da Uber e 67,09 € da Bolt.

Também houve dias bastante diferentes.

E é precisamente essa diferença que considero importante. Um motorista não deve avaliar a sua estratégia apenas pelo melhor dia que teve.

É preciso olhar para vários dias e perceber o que está realmente a acontecer.

Nem todos os quilómetros são iguais

Há uma diferença enorme entre estar a trabalhar e simplesmente estar a conduzir.

Se estou a fazer uma viagem paga, estou a produzir receita.

Se estou vazio, estou a consumir tempo e energia sem estar a gerar receita.

Por isso, uma parte importante do trabalho passa por pensar no que acontece depois de cada viagem.

Onde vou ficar?

É provável que apareça outra viagem?

Estou a afastar-me demasiado da zona onde quero trabalhar?

Quanto tempo perdi?

Estas perguntas nem sempre têm uma resposta imediata. Mas comecei a fazê-las cada vez mais.

E isso mudou a minha maneira de conduzir TVDE.

O dia começa antes de ligar as aplicações

Outra coisa que aprendi é que o resultado do dia não depende apenas das viagens que aparecem.

Depende também da preparação.

Carga suficiente no carro, conhecer minimamente o estado do dia, perceber quanto tempo tenho disponível e definir um objetivo.

Parece básico, mas quando fazemos muitas horas na estrada é fácil entrar num modo automático.

Liga-se a aplicação.

Aceita-se uma viagem.

Depois outra.

Depois outra.

E, quando damos por isso, passaram-se várias horas sem percebermos realmente se estamos a trabalhar de acordo com aquilo que tínhamos planeado.

Ter um objetivo diário ajuda a evitar isso.

O tempo limitado muda a forma de pensar

Esta talvez seja a maior aprendizagem que tive.

Tempo limitado, quilómetros do carro não.

Esta frase resume bastante bem a forma como passei a encarar o trabalho.

Não significa ignorar os custos do carro. Muito pelo contrário.

Significa perceber que o carro é uma ferramenta e que o objetivo é utilizá-la de forma eficiente.

Fazer mais quilómetros não significa necessariamente ganhar mais dinheiro.

Fazer mais horas também não significa necessariamente ganhar mais dinheiro.

O que interessa é aquilo que conseguimos produzir com o tempo que temos disponível, descontando naturalmente os custos que o trabalho implica.

Há dias em que a estratégia simplesmente não funciona

Também aprendi a aceitar que não controlamos tudo.

Há períodos em que a procura baixa. Há dias em que as viagens não aparecem como gostaríamos. Há momentos em que podemos passar bastante tempo na estrada e sentir que o resultado não corresponde ao esforço.

Agosto, por exemplo, mostrou-me novamente como os resultados podem variar.

Nessas alturas, a pior coisa que podemos fazer é tentar recuperar à força aquilo que não conseguimos fazer nas primeiras horas.

Mais horas na estrada nem sempre resolvem um dia fraco.

Às vezes é preciso simplesmente reconhecer que aquele dia não está a correr como esperávamos.

Fazer TVDE também é gerir dinheiro

Outra aprendizagem importante foi perceber que faturação não é dinheiro disponível.

Existem custos.

Existe o carro.

Existe energia.

Existem despesas da atividade.

E existe a diferença entre aquilo que entra e aquilo que efetivamente fica.

Por isso, comecei a olhar para os meus resultados de uma forma mais completa.

Quanto entrou?

Quantas horas trabalhei?

Quantos quilómetros fiz?

Quanto gastei em carregamento?

Quanto ficou realmente?

É por isso que tenho vindo a desenvolver uma forma própria de acompanhar os meus dias de TVDE.

Não quero apenas saber quanto fiz hoje.

Quero conseguir olhar para trás e perceber se estou realmente a trabalhar de forma mais eficiente.

A estrada também ensina a parar

Quando somos nós próprios a controlar o nosso horário, existe uma tentação permanente para continuar.

“Só mais uma viagem.”

“Só preciso de chegar aos 150 €.”

“Vou fazer mais uma hora.”

Mas o trabalho não termina quando aparece a última viagem.

Existe também um limite físico e mental.

E uma das coisas que estou a aprender é que saber parar também faz parte de ser profissional.

Não adianta transformar um objetivo diário numa obrigação que nos leva a tomar decisões cada vez piores.

Não existe uma fórmula universal

Uma coisa que não quero fazer neste blog é apresentar a minha forma de trabalhar como se fosse a fórmula certa para todos os motoristas.

Não é.

Cada motorista tem um carro diferente, custos diferentes, horários diferentes, objetivos diferentes e uma realidade diferente.

Aquilo que funciona comigo pode não funcionar com outra pessoa.

O que posso fazer é partilhar aquilo que eu próprio fui aprendendo.

E talvez essa seja a parte mais interessante.

Porque trabalhar em TVDE não é apenas seguir uma aplicação.

É aprender constantemente com os resultados.

O que a estrada me ensinou até agora

  • Tempo é um recurso tão importante como os quilómetros.
  • Nem todas as viagens que parecem boas são realmente boas.
  • O valor por hora é uma referência importante para mim.
  • Uber e Bolt são ferramentas; a decisão final é do motorista.
  • Faturação não é lucro.
  • É importante acompanhar quilómetros, horas, receitas e custos.
  • Um bom dia não define a nossa estratégia.
  • Um dia mau também não define a nossa capacidade.
  • É preciso adaptar a estratégia à realidade da estrada.
  • Saber parar também faz parte do trabalho.

Ainda estou a aprender.

Provavelmente vou continuar a mudar algumas das minhas regras à medida que tiver mais dados e mais experiência.

Porque essa é, no fundo, uma das características de trabalhar em TVDE: não existe um manual que consiga prever todos os dias.

Existe a estrada.

Existem as aplicações.

Existem os passageiros.

Existem os custos.

E existem as decisões que tomamos entre uma viagem e outra.

É isso que pretendo continuar a partilhar aqui.

Não como especialista que tem todas as respostas, mas como motorista que está na estrada e que vai aprendendo com aquilo que ela lhe mostra.