"Quanto é que se ganha a fazer TVDE?"
É provavelmente a pergunta que mais me fazem desde que comecei a trabalhar como motorista TVDE em Lisboa.
A resposta curta seria dizer um número.
O problema é que esse número, por si só, não significa quase nada.
Ao longo do tempo percebi que existe uma diferença enorme entre aquilo que se fatura, aquilo que se gasta para trabalhar e aquilo que realmente sobra no final.
Por isso, neste artigo não vou tentar dizer quanto ganha um motorista TVDE em Lisboa. Vou simplesmente partilhar a minha experiência, os números que fui registando ao longo de 2026 e aquilo que aprendi depois de muitos quilómetros a trabalhar com Uber e Bolt.
Porque uma coisa é a faturação.
Outra coisa muito diferente é o rendimento real.
Mais de 21 mil euros faturados em oito meses
Ao longo de 2026 fui registando os meus dias de trabalho, as horas, a faturação e várias despesas relacionadas com a atividade.
Quando revi esses números, encontrei um dado que me chamou a atenção.
Entre janeiro e o início de setembro de 2026, a minha faturação total foi de 21.706 €, distribuída por 188 dias de trabalho.
Isso representa uma média de cerca de 115 € por dia trabalhado.
Dessa faturação:
- cerca de 65% veio da Uber
- cerca de 31% veio da Bolt
- os restantes 3,5% vieram de outras fontes
À primeira vista parecem números interessantes.
Mas existe um problema.
A faturação, por si só, não responde à pergunta que toda a gente faz.
Porque faturar não é o mesmo que ganhar.
O valor que aparece na aplicação não é aquilo que fica
Quando alguém vê uma viagem de 15 ou 20 euros na aplicação, é fácil assumir que aquele é o dinheiro que o motorista ganhou.
Mas a realidade é mais complicada.
Existe o tempo necessário para fazer a viagem.
Existem os quilómetros percorridos.
Existem os carregamentos.
Existem seguros, comunicações e outras despesas associadas à atividade.
Uma viagem pode parecer excelente quando olhamos apenas para o valor pago pelo passageiro.
Mas quando começamos a olhar para tudo o resto, a perspetiva muda bastante.
Foi uma das maiores lições que aprendi desde que comecei a trabalhar nesta área.
Uber e Bolt fazem parte da mesma estratégia
No meu caso, trabalho com Uber e Bolt.
Normalmente mantenho ambas as plataformas ligadas e, quando aceito uma viagem numa delas, desligo temporariamente a outra.
Não porque exista uma plataforma perfeita.
Mas porque trabalhar com as duas ajuda-me a reduzir tempos de espera e a aproveitar melhor o tempo disponível.
E foi precisamente o tempo que acabou por mudar a forma como vejo este trabalho.
Porque comecei a pensar mais em €/hora
Durante muito tempo dei bastante importância ao valor por quilómetro.
Faz sentido.
O carro está constantemente a fazer quilómetros e isso tem impacto nos custos.
Mas, com o passar do tempo, percebi uma coisa simples:
o carro pode fazer quilómetros. Eu gasto horas.
O meu tempo é limitado.
E existe uma razão muito pessoal para isso.
Tenho um filho, o Duarte, e faço questão de estar presente nos treinos dele, que normalmente começam por volta das 18h30. Ao sábado de manhã também gosto de assistir aos jogos dele. Como é guarda-redes da equipa local, tento acompanhar essa parte da vida dele o mais possível.
Isso significa que nem sempre posso simplesmente prolongar o dia de trabalho para fazer mais algumas viagens.
Foi uma das razões que me levou a olhar para o trabalho de uma forma diferente.
Hoje dou muito mais importância ao €/hora do que ao valor de uma viagem isolada.
Quando o tempo é limitado, torna-se importante perceber se as horas que estamos a dedicar ao trabalho estão realmente a compensar.
Nos meses em que mantive os registos mais completos, os valores ficaram próximos dos 14,6 € a 15,2 € por hora.
Não são números extraordinários.
Mas são números reais.
E ajudam-me muito mais a perceber o valor do meu tempo do que olhar apenas para a faturação diária.
Há dias muito bons. E há dias bastante mais fracos
Uma das conclusões mais fáceis de tirar quando se analisam vários meses de trabalho é que não existem dois dias iguais.
O meu melhor dia de faturação em 2026 foi 11 de junho, com 255,79 €.
Mas também tive dias bastante mais modestos.
Dentro do período em que tenho todos os dados completos registados, um dos dias mais fracos foi 22 de agosto, com 63,39 €, sete viagens, 192 quilómetros e pouco mais de quatro horas e meia de trabalho.
No extremo oposto, tive dias como 31 de agosto, com 156,90 €, 12 viagens, 334 quilómetros e uma média próxima dos 18,8 €/hora.
É esta variabilidade que muitas vezes não aparece quando alguém pergunta simplesmente quanto ganha um motorista TVDE.
Existem dias excelentes.
Existem dias normais.
E existem dias que ficam muito abaixo daquilo que esperamos.
Os quilómetros continuam a contar
Embora hoje dê mais importância ao €/hora, continuo a acompanhar os quilómetros percorridos.
Afinal, o carro é a principal ferramenta do meu trabalho.
Durante julho percorri cerca de 6.876 km profissionais.
Em agosto foram mais 6.064 km profissionais.
São números elevados e ajudam a perceber porque é tão importante controlar custos e eficiência.
Mas também mostram porque deixei de olhar apenas para o valor por quilómetro.
Dois dias podem ter quilometragens semelhantes e resultados completamente diferentes quando se olha para o tempo investido.
Por isso, hoje continuo a acompanhar os quilómetros, mas já não os vejo como o indicador mais importante.
O Tesla e o custo da energia
Uma das grandes vantagens de trabalhar com um carro elétrico está nos custos de energia.
Ao analisar os meus registos, o custo da eletricidade ficou entre 0,045 € e 0,049 € por quilómetro.
Na prática, um dia com cerca de 300 quilómetros representa normalmente algo entre 13 e 15 euros de eletricidade.
Quando consigo carregar em casa, a diferença é ainda maior.
Isto não significa que um Tesla seja perfeito nem que seja a escolha certa para toda a gente.
Mas, para o tipo de utilização que faço, o custo da energia continua a ser uma das maiores vantagens do carro.
A faturação nem sempre conta a história toda
Talvez a comparação mais interessante que encontrei ao rever os números de julho e agosto de 2026 seja esta.
Em julho faturei 3.116 €.
Em agosto faturei 2.775 €.
À primeira vista parecem dois meses bastante semelhantes.
Se tivesse olhado apenas para a faturação, teria dito que julho e agosto foram meses relativamente parecidos.
Quando olhei para as despesas, percebi que eram histórias completamente diferentes.
Julho terminou com um resultado positivo de cerca de 534 €.
Agosto terminou com um resultado negativo de cerca de 376 €.
A diferença não esteve apenas na faturação.
Esteve nos custos.
Houve despesas adicionais de manutenção e outros encargos que acabaram por transformar dois meses aparentemente parecidos em resultados muito diferentes.
Foi uma das confirmações mais claras de algo que já suspeitava há muito tempo:
faturação e rendimento não são a mesma coisa.
Então, quanto se ganha realmente a fazer TVDE?
Hoje, quando me fazem essa pergunta, a minha resposta é sempre a mesma:
depende.
Depende das horas que trabalhas.
Depende dos quilómetros que fazes.
Depende dos custos que tens.
Depende da forma como organizas o teu trabalho.
E depende também dos objetivos que tens fora do carro.
Posso dizer que entre janeiro e o início de setembro faturei mais de 21 mil euros.
Posso mostrar dias acima dos 250 € e outros abaixo dos 70 €.
Posso mostrar meses positivos e meses negativos.
Mas nenhum desses números, isoladamente, responde à pergunta quanto ganha um motorista TVDE em Lisboa.
É preciso olhar para o conjunto.
O que significa ganhar dinheiro para mim
Hoje já não avalio um dia apenas pela faturação.
Olho para as horas.
Olho para os quilómetros.
Olho para os custos.
E olho para aquilo que realmente sobra.
Porque fazer mais dinheiro nem sempre significa ter tido um melhor dia.
Se conseguir atingir os meus objetivos sem abdicar de acompanhar os treinos e os jogos do Duarte, considero que o dia correu bem.
Foi uma das maiores mudanças na minha forma de pensar desde que comecei a trabalhar como motorista TVDE.
No início perguntava:
"Quanto fiz hoje?"
Hoje pergunto:
"Quanto fiz, quanto tempo trabalhei e quanto me ficou realmente?"
Porque ganhar dinheiro não é apenas faturar mais.
É conseguir que o trabalho faça sentido para a vida que temos fora dele.
E se conseguir atingir os meus objetivos sem abdicar de acompanhar os treinos e os jogos do Duarte, então considero que o dia valeu a pena.
No final, não é a faturação que paga as contas.
É aquilo que sobra.