SOBRE MIM

Antes do TVDE e da Twitch: a minha história com o modelismo ferroviário

Modelismo ferroviário
EH500 da JRF numa maqueta ferroviária japonesa em Escala N

Hoje, quem me conhece através das streams, do TVDE ou deste site talvez não saiba que, durante muitos anos, os comboios em miniatura fizeram parte da minha vida.

Entre 2005 e 2021 trabalhei na Comboios Eléctricos, em Santo Amaro de Oeiras, uma loja dedicada ao modelismo ferroviário. Foram 16 anos rodeado por locomotivas, carruagens, maquetas, kits e, sobretudo, por pessoas apaixonadas por este hobby.

Mas a minha relação com o modelismo ferroviário não se limitava ao trabalho.

Durante esses anos também fui modelista, construí maquetas, montei kits, alterei locomotivas, fiz pinturas e weathering e passei muitas horas de volta das minhas mesas de trabalho.

E foi também nessa época que comecei a perceber que gostava não só de fazer as coisas, mas também de as mostrar e partilhar com outras pessoas.

Um hobby que acabou por fazer parte da minha vida

O modelismo ferroviário pode parecer, para quem está de fora, simplesmente uma questão de colocar um comboio em cima de uns carris.

Na realidade, é muito mais do que isso.

Uma maqueta ferroviária é uma pequena representação de um mundo. Há o traçado da via, os edifícios, a paisagem, a vegetação, os veículos, as pessoas, a iluminação e todos aqueles pequenos detalhes que fazem com que uma cena pareça real.

E existe também o próprio material circulante.

Uma locomotiva pode sair da caixa praticamente pronta para circular, mas também pode ser apenas o ponto de partida para um projeto completamente diferente.

Foi sobretudo essa segunda vertente que me interessou.

Montar, alterar, pintar e envelhecer modelos permitia transformar uma peça produzida em série num modelo com uma identidade própria.

A oficina era o ponto de partida

Ao longo dos anos tive várias mesas e espaços de trabalho.

Não era propriamente uma oficina profissional com tudo perfeitamente organizado. Era, acima de tudo, o lugar onde os projetos iam acontecendo.

Ali estavam as ferramentas, tintas, peças, colas, materiais e, muitas vezes, vários projetos ao mesmo tempo.

Uma das mesas de trabalho usadas pelo Luís Daniel para projetos de modelismo ferroviário

Era ali que uma locomotiva podia começar completamente normal e acabar irreconhecível depois de horas de trabalho.

E era também ali que uma simples ideia para uma maqueta podia transformar-se num projeto que demorava semanas ou meses.

Trabalhar em diferentes escalas

Uma das coisas interessantes no modelismo ferroviário é a existência de várias escalas.

Grande parte do meu trabalho foi desenvolvido em Escala N, uma escala bastante pequena que permite construir cenários relativamente grandes sem precisar de ocupar uma divisão inteira.

E quando trabalhamos numa escala tão pequena, cada milímetro começa a contar.

SBB CE 6/8 numa maqueta ferroviária em Escala N

Um dos exemplos é esta SBB CE 6/8, numa maqueta em Escala N.

RS11 da Southern Pacific numa maqueta ferroviária em Escala N

Outro exemplo completamente diferente é esta RS11 da Southern Pacific, também numa maqueta em Escala N.

Estes dois modelos também mostram uma das coisas que sempre gostei no hobby: a possibilidade de explorar épocas, países e ambientes ferroviários completamente diferentes.

Uma das minhas maquetas preferidas

Entre os vários projetos que fiz, existe uma maqueta japonesa de que guardo uma recordação especial.

O Japão tem uma cultura ferroviária muito própria e, quando reproduzida em miniatura, permite criar cenários extremamente detalhados.

Detalhe de uma maqueta ferroviária japonesa construída em Escala N

Uma das coisas que mais me atraía nestes projetos era precisamente o detalhe.

Quando olhamos para uma maqueta à distância vemos um cenário. Quando nos aproximamos começamos a descobrir pequenas histórias dentro desse cenário.

E depois há o material circulante.

O EH500 da JRF que aparece na imagem de capa é um bom exemplo disso.

É este tipo de pormenor que pode fazer com que uma fotografia de uma maqueta pareça, por momentos, uma fotografia de um cenário real.

Não era apenas montar modelos

Uma parte importante do meu trabalho como modelista estava na transformação do material.

Havia modelos que simplesmente não me interessava manter como saíam da caixa.

Um dos exemplos de que mais gosto é esta GP9 da Maine Central.

GP9 da Maine Central completamente modificada, pintada e com weathering feito pelo Luís Daniel

A locomotiva foi completamente modificada, pintada e envelhecida por mim.

O weathering é uma das técnicas que mais transforma um modelo.

Uma locomotiva nova e impecável pode ser tecnicamente perfeita, mas uma locomotiva real raramente permanece assim durante muito tempo.

Poeira, óleo, ferrugem, sujidade e desgaste fazem parte da vida de um veículo ferroviário.

Reproduzir esses sinais numa miniatura é uma forma de tentar dar-lhe uma aparência mais realista.

E também houve modelos portugueses

Outro exemplo é esta CP 1930, montada a partir de um kit da Arlo Micromodel.

CP 1930 da Arlo Micromodel montada, pintada e com weathering feito pelo Luís Daniel

Aqui também fui responsável pela montagem, pintura e weathering.

Trabalhar a partir de um kit é uma experiência bastante diferente de comprar um modelo já acabado.

Existe uma parte do modelo que simplesmente não existe ainda.

É preciso montar as peças, corrigir problemas, preparar as superfícies, pintar, aplicar os detalhes e, finalmente, dar-lhe aquele aspecto que queremos.

É aí que o modelo deixa de ser apenas um produto e passa a ter muito mais do nosso próprio trabalho.

Antes da Twitch, já criava conteúdos

Há outra parte desta história que hoje considero particularmente interessante.

Muito antes das minhas atuais streams na Twitch, eu já utilizava a Internet para partilhar aquilo que fazia.

Em 2008 criei o blog Luis Lopes Modelismo, onde fui documentando projetos, modelos, experiências e trabalhos relacionados com o hobby.

Ao longo dos anos também passei pelo YouTube e pelas transmissões em direto.

Na altura, obviamente, tudo era bastante diferente.

Não havia a mesma facilidade de hoje para fazer uma transmissão a partir de qualquer lugar. Os equipamentos eram diferentes, as plataformas eram diferentes e as comunidades online também funcionavam de outra forma.

Mas a ideia de fundo era exatamente a mesma:

fazer alguma coisa e depois partilhá-la com outras pessoas.

16 anos na Comboios Eléctricos

Entre 2005 e 2021, o modelismo ferroviário também fez parte da minha vida profissional.

Trabalhei durante esses 16 anos na Comboios Eléctricos, em Santo Amaro de Oeiras.

Foi um período muito importante no meu percurso.

Estar diariamente ligado a este hobby permitiu-me conhecer muito melhor o mundo do modelismo ferroviário, desde o material circulante às diferentes técnicas e formas de construir uma maqueta.

Mas também me colocou em contacto com algo que considero ainda mais importante: as pessoas.

O modelismo ferroviário é uma comunidade.

Há quem goste de locomotivas portuguesas, quem prefira material americano, quem seja apaixonado pelo Japão, quem construa maquetas enormes e quem trabalhe em pequenas cenas numa mesa.

Não existe uma única forma certa de viver este hobby.

Cada modelista acaba por encontrar a sua própria maneira de fazer as coisas.

O fim de uma fase

Em 2021 terminou essa etapa profissional.

E, com o passar do tempo, também fui deixando o modelismo ferroviário para segundo plano.

A vida mudou, surgiram outras responsabilidades e apareceram novos interesses.

Mas não considero que tenha sido uma paixão perdida.

Foi simplesmente uma fase da minha vida que chegou ao fim.

E quando olho para trás, percebo que aqueles anos deixaram muito mais do que uma coleção de modelos ou fotografias.

Deixaram experiência.

Deixaram conhecimentos.

E deixaram, sobretudo, uma forma de estar que ainda hoje reconheço em muitas das coisas que faço.

Dos comboios em miniatura às streams

Hoje o cenário é completamente diferente.

Em vez de passar horas a construir uma maqueta, passo parte do meu tempo atrás do volante de um Tesla a trabalhar em TVDE.

Em vez de filmar locomotivas em miniatura, faço streams IRL.

Em vez de escrever apenas sobre modelismo, tenho este site onde partilho experiências, projetos e outras coisas que fazem parte da minha vida.

Mas existe uma ligação entre tudo isto.

Sempre gostei de criar, experimentar, aprender e partilhar.

Foi isso que fiz com o modelismo ferroviário.

Foi isso que fiz quando comecei a criar vídeos.

E é isso que continuo a fazer hoje.

Talvez por isso, quando penso nos anos do modelismo, não os vejo apenas como uma antiga paixão.

Vejo-os como uma das primeiras fases da minha história enquanto criador de conteúdos.

Antes do TVDE.

Antes da Twitch.

Antes deste site.

Havia uma mesa de trabalho, algumas ferramentas, uma locomotiva em miniatura e muitas horas para transformar uma ideia em realidade.

E, de certa forma, continuo a fazer exatamente a mesma coisa.

Só mudou o tamanho da maqueta.