Durante muito tempo, achei que trabalhar mais era a melhor forma de conseguir aquilo que queria. Mais horas ao volante, mais viagens, mais faturação. O objetivo era fazer dinheiro, pagar as contas e tentar construir uma vida mais estável.
Só que, pelo caminho, fui deixando algumas coisas para trás. O descanso, a alimentação, o tempo para mim e, acima de tudo, o tempo para estar com o meu filho.
Até que houve um dia em que percebi que precisava de mudar.
Uma rotina que não era sustentável
O meu dia começava às 5h30 da manhã. Levantava-me para fazer exercício em casa e, às 7h15, já estava dentro do Tesla, pronto para começar mais um dia de trabalho.
Não tomava o pequeno-almoço. Estava a fazer jejum intermitente e levava uma salada para comer no carro durante o dia. Trabalhava até às 18h, altura em que tinha de ir buscar o Duarte ou acompanhá-lo ao treino, que terminava por volta das 20h.
Enquanto ele treinava, bebia algumas cervejas com os amigos e os outros pais. Depois, deixava o carro na garagem e chegava a casa por volta das 21h. Era altura de comer, muitas vezes em excesso, e ir para a cama.
No dia seguinte, o ciclo repetia-se.
De quinze em quinze dias, o Duarte está comigo. Nas semanas em que não está, havia alturas em que trabalhava sete dias por semana.
Olhando para trás, percebo que estava demasiado focado em cumprir os meus objetivos. Queria faturar, mas nem sempre dava a devida importância à forma como estava a cuidar de mim.
O dia em que percebi que tinha de parar
Na semana que antecedeu o episódio que me levou ao hospital, comi mal e descansei pouco. Nesse dia, já me sentia estranho, mas continuei a minha rotina. Depois de uma discussão com uma cliente no carro, comecei a sentir-me mesmo mal.
Senti pânico. Naquele momento, só me lembrava do Duarte.
Não vou fingir que tenho todas as respostas sobre o que aconteceu. Mas a experiência obrigou-me a olhar para a minha rotina de outra maneira.
Percebi que não vale a pena trabalhar demasiado se não tivermos saúde. Não faz sentido passar tantas horas a tentar ganhar dinheiro se, pelo caminho, estamos a prejudicar aquilo que nos permite continuar a trabalhar e a aproveitar a vida.
E percebi também outra coisa: trabalhar demais rouba-nos tempo. Tempo para nós, para a família, para os amigos e para acompanhar os nossos filhos enquanto eles crescem.
As contas, infelizmente, não desaparecem só porque precisamos de abrandar. Tive de encontrar outra maneira de trabalhar.
Voltar ao volante, mas com outra mentalidade
Regressar ao trabalho trouxe algum receio. Felizmente, com o passar dos dias, esse medo foi diminuindo.
Continuo a conduzir em Lisboa e sei bem como pode ser stressante. O trânsito, a falta de respeito entre condutores e as situações que aparecem inesperadamente fazem parte da realidade de quem passa tantas horas na estrada.
A diferença é que já não quero viver o trabalho da mesma forma.
A primeira mudança foi simples: deixei de ter uma hora obrigatória para começar o dia. Agora, acordo sem despertador e começo a trabalhar quando acordo e estou preparado.
Tomo um bom pequeno-almoço e como uma peça de fruta a meio da manhã. Também procuro vir almoçar a casa. Pode parecer um pormenor, mas sair do carro, parar e comer tranquilamente faz diferença na minha rotina.
São mudanças simples, mas que me ajudam a deixar de viver exclusivamente em função do trabalho.
Menos centro de Lisboa, mais tempo útil
Outra mudança importante foi a escolha das zonas onde trabalho.
Sempre que possível, tento ficar fora do centro de Lisboa, com especial incidência em Alverca, Vila Franca de Xira e Parque das Nações.
O motivo é simples: no centro de Lisboa, posso passar demasiado tempo parado no trânsito sem estar a ganhar dinheiro. Além disso, a falta de respeito entre alguns condutores acrescenta um nível de stress de que não preciso.
Fora do centro, a realidade pode ser diferente. Há viagens de três, quatro ou cinco euros que consigo fazer em cinco minutos. Em determinadas zonas de Lisboa, fazer a mesma viagem pode ser muito mais demorado.
Claro que também há dias em que faturo menos. Não vou esconder isso. Mas comecei a perceber que a faturação, por si só, não conta toda a história.
Quando ando menos quilómetros, gasto menos bateria e preciso de carregar menos vezes, tanto na garagem como na rua. Isso também tem impacto nos custos e na rentabilidade do trabalho.
O meu objetivo deixou de ser simplesmente fazer o maior número possível de viagens. Quero aproveitar melhor o tempo que passo ao volante.
Faturar menos não significa necessariamente ficar pior
A faturação continua a ser importante. Tenho contas para pagar e responsabilidades que não posso ignorar.
A diferença é que já não fico tão preocupado quando não consigo atingir o objetivo num determinado dia. Há dias melhores e dias piores. Amanhã será outro dia.
Também comecei a prestar mais atenção ao dinheiro que gasto fora do trabalho.
Deixei de comer fora com tanta frequência. Os lanches nas estações de serviço, os cafés e as pastelarias, as bifanas e as cervejas deixaram de fazer parte do meu quotidiano.
São despesas que, vistas isoladamente, parecem pequenas. Um café aqui, um lanche ali, uma refeição rápida porque não houve tempo para mais nada. Mas, quando se tornam hábitos diários, acabam por representar uma parte considerável do dinheiro que ganhamos.
Um amigo meu costuma dizer-me uma coisa de que me tenho lembrado bastante:
“O segredo muitas vezes não está no que se factura, mas está no que não se gasta.”
Estou a conseguir provar isso na prática. Hoje ganho menos do que poderia ganhar se voltasse a trabalhar ao ritmo de antes, mas estou a conseguir pagar as contas. E isso dá-me alguma tranquilidade.
Não se trata de deixar de querer ganhar dinheiro. Trata-se de perceber quanto preciso de ganhar e de controlar melhor aquilo que gasto para lá chegar.
O tempo com o Duarte vale mais do que uma viagem extra
Esta mudança também me fez olhar de outra forma para o tempo fora do trabalho.
A minha prioridade é estar com o Duarte e acompanhá-lo nas atividades dele. Quero estar presente, não apenas garantir que cumpro as minhas responsabilidades.
Também tenho conseguido recuperar algum tempo para mim. Jogar videojogos, ver um filme ou simplesmente ver um vídeo no YouTube sobre um assunto de que gosto são coisas simples, mas que me ajudam a desligar.
Continuo a ambicionar ter o meu próprio espaço, um sítio onde possa estar sossegado e ter o meu cantinho. Sei que é um objetivo importante para mim, mas também percebi que não preciso de resolver tudo de uma vez.
Há coisas que levam tempo. E está tudo bem com isso.
O que aprendi com esta experiência
Não escrevo este artigo porque tenha descoberto uma fórmula mágica para trabalhar menos e ganhar mais. Não descobri. Continuo a ter despesas, objetivos e dias em que as coisas não correm como gostaria.
O que mudou foi a minha maneira de olhar para o trabalho.
Hoje, quero faturar o suficiente para cumprir as minhas responsabilidades, controlar melhor as despesas e evitar passar mais horas na estrada do que aquelas de que realmente preciso.
Quero continuar a trabalhar, mas sem deixar que o trabalho ocupe todo o espaço da minha vida.
Se há uma mensagem que gostava de deixar a outros motoristas TVDE, é esta: não se matem a trabalhar.
Olhem para as vossas despesas. Percebam quanto precisam de faturar, acrescentem uma margem para os imprevistos e tentem organizar o trabalho de forma a que faça sentido para vocês.
Mas não deixem de estar com a família, de conviver com os amigos e de reservar algum tempo para vocês próprios.
Porque, no final, não se trata apenas de quanto dinheiro conseguimos ganhar ao volante. Trata-se também da vida que conseguimos viver quando saímos do carro.
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