Trabalho como motorista TVDE desde fevereiro de 2023, sobretudo em Lisboa. Quando comecei, tinha os meus objetivos e preocupações, como qualquer pessoa que trabalha para ganhar a vida. Mas, com o passar do tempo, fui percebendo que esta atividade me estava a ensinar coisas que vão muito além de conduzir um carro e aceitar viagens numa aplicação.
A verdade é que a minha maneira de olhar para o trabalho, para o dinheiro e para o tempo mudou bastante nos últimos anos. E não foi apenas por causa do TVDE. Foi também por tudo aquilo que aconteceu na minha vida pessoal.
Hoje, dou muito mais valor ao meu tempo. E isso mudou a forma como encaro o trabalho.
Nem sempre fazer mais significa viver melhor
Durante muito tempo, é fácil cair na ideia de que, se precisamos de mais dinheiro, a solução passa por trabalhar mais horas.
Mais uma viagem, mais algum tempo na estrada, mais um esforço para conseguir pagar as contas. E, quando temos despesas à nossa espera no final do mês, é compreensível pensar dessa maneira.
O problema é quando esse esforço começa a ocupar quase todo o espaço que temos para viver.
Entre as horas de trabalho, as despesas e as responsabilidades do dia a dia, podemos acabar por entrar numa rotina em que estamos constantemente a tentar chegar ao fim do mês, sem conseguir parar para pensar se a maneira como estamos a viver é realmente aquela que queremos.
Foi algo que me fez repensar muitas coisas.
Percebi que não quero medir os meus dias apenas pelo dinheiro que consegui fazer ou pelo número de viagens que realizei. Quero também perceber quanto tempo investi para chegar a esse resultado e o que me sobra desse tempo para o resto da minha vida.
Porque trabalhar para viver é uma coisa. Sentir que vivemos apenas para trabalhar é outra completamente diferente.
A minha vida pessoal também mudou a minha forma de pensar
Em 2024, passei por um divórcio. Foi uma mudança importante na minha vida e que me levou a olhar de outra forma para várias coisas.
Uma das questões que mais valorizo hoje é o tempo que posso passar com o meu filho.
Durante o meu casamento, por motivos relacionados com ciúmes, acabei por me afastar dele. É uma parte da minha história que não posso ignorar quando penso naquilo que quero para o meu futuro.
Hoje, quero estar mais presente na vida do meu filho e aproveitar melhor o tempo que tenho com ele.
Ao mesmo tempo, estou a viver com os meus pais e tenho o objetivo de voltar a ter um espaço meu, onde possa construir uma vida com mais independência e ter o meu próprio canto.
São objetivos importantes para mim. Mas também exigem dinheiro, planeamento e decisões que nem sempre são fáceis.
É aqui que o trabalho entra novamente nesta equação: preciso de ganhar dinheiro para construir o futuro que quero, mas não quero que o caminho até lá me retire aquilo que também considero essencial.
Quando as contas começam a pesar
Quem trabalha por conta própria, ou numa atividade em que os rendimentos dependem do trabalho realizado, sabe que existe sempre uma preocupação com o dinheiro que entra e com as despesas que estão à espera.
No TVDE, essa preocupação pode tornar-se bastante presente. Temos o carro, os carregamentos, os custos associados à atividade e as despesas pessoais. Tudo precisa de ser pago, independentemente de o dia ter corrido bem ou mal.
No meu caso, o peso das contas e a necessidade de conseguir dinheiro levaram-me a trabalhar horas sem fim.
A ideia era simples: trabalhar mais para conseguir pagar tudo.
Mas essa lógica tem um limite.
O stress acumulado e o esforço de continuar a trabalhar durante tantas horas acabaram por me levar a uma situação de esgotamento, acompanhada de dificuldades ao nível da saúde mental.
Não é algo que diga de ânimo leve. É uma parte da minha experiência que me obrigou a repensar a forma como estava a organizar a minha vida.
Percebi que não posso olhar apenas para as despesas que tenho de pagar. Também preciso de ter em conta os custos pessoais de tentar resolver tudo à custa de mais horas de trabalho.
As contas continuam a existir. Os objetivos continuam a ser importantes. Mas eu também tenho de cuidar de mim.
Lisboa, o trânsito e a forma como escolho trabalhar
Uma das mudanças que tenho procurado fazer na minha maneira de trabalhar está relacionada com os locais onde conduzo.
Lisboa pode ser bastante complicada em termos de trânsito, sobretudo no centro da cidade. Entre congestionamentos, tempos de espera e deslocações demoradas, há situações em que passamos muito tempo ao volante sem que isso se traduza necessariamente num melhor resultado.
Por isso, tenho tentado fugir do centro de Lisboa e do trânsito mais caótico.
Não significa que tenha encontrado uma fórmula perfeita, nem que todos os dias corram como planeado. Significa apenas que procuro fazer escolhas mais conscientes sobre a maneira como utilizo o meu tempo.
Se tenho um número limitado de horas para trabalhar, quero tentar aproveitá-las da melhor forma possível.
É uma mudança que faz sentido para mim, sobretudo porque já não quero prolongar os meus dias de trabalho sem pensar no impacto que isso tem no resto da minha vida.
Aprendi a olhar para os números de outra maneira
Também passei a dar mais importância à análise dos meus próprios resultados.
Gosto de acompanhar o trabalho numa folha de Excel, onde posso registar os valores dos dias e analisar aspetos como as horas trabalhadas e os quilómetros percorridos.
Não se trata de complicar aquilo que já é suficientemente exigente. Pelo contrário: quero ter informação que me ajude a tomar decisões melhores.
Uma boa faturação pode parecer excelente à primeira vista, mas é importante perceber quanto tempo foi necessário para a conseguir e quais foram os custos associados ao trabalho.
Da mesma forma, fazer muitas viagens não significa necessariamente que tenha tido um dia melhor.
Para mim, o tempo passou a ter um peso muito maior nesta análise.
Não quero simplesmente trabalhar mais horas. Quero perceber se as horas que trabalho estão a produzir resultados que façam sentido para os meus objetivos.
E, acima de tudo, quero evitar voltar à ideia de que a única resposta para todas as dificuldades financeiras é continuar a trabalhar cada vez mais.
O Tesla também faz parte desta realidade
Conduzo um Tesla Model 3 Performance, um carro de que gosto, mas que também faz parte da minha atividade profissional.
E essa distinção é importante.
Quando utilizamos um carro para trabalhar, não podemos olhar para ele apenas como um objeto de que gostamos. Temos de considerar os carregamentos, os custos de utilização e as restantes despesas associadas.
O facto de ser um Performance também significa que é importante ter em conta os consumos. Para trabalhar, uma versão Standard poderá ser suficiente para muitas das necessidades de um motorista TVDE, dependendo da utilização.
Esta experiência fez-me perceber que as decisões profissionais precisam de ser avaliadas com os pés assentes na terra. Gostar de alguma coisa não significa que seja sempre a escolha mais eficiente do ponto de vista financeiro.
Tal como acontece com o meu tempo, também aqui procuro encontrar um equilíbrio entre aquilo de que gosto e aquilo que faz sentido para a atividade.
Hoje, quero mais do que simplesmente pagar as contas
Continuo a precisar de trabalhar. Continuo a ter responsabilidades financeiras e objetivos que quero alcançar.
Quero ter o meu próprio espaço, conquistar mais independência e, sobretudo, conseguir organizar a minha vida de uma forma que me permita estar mais presente para o meu filho.
Mas já não quero olhar para o trabalho como se todas as horas disponíveis tivessem de ser utilizadas para ganhar dinheiro.
Quero encontrar uma maneira de cumprir as minhas responsabilidades sem deixar que o trabalho ocupe tudo o resto.
Isso implica pensar melhor nos horários, analisar os resultados, tentar evitar o trânsito mais complicado e reconhecer os meus próprios limites.
Não tenho uma solução milagrosa para partilhar. Ainda estou a construir o meu caminho e a tentar encontrar o equilíbrio certo entre os rendimentos de que preciso e a vida que quero ter.
Mas há uma coisa que hoje vejo de maneira diferente: o tempo não é apenas aquilo que passamos a trabalhar. É também o tempo que temos para a família, para nós próprios e para construir o futuro que desejamos.
Afinal, o que me tem ensinado o TVDE?
O TVDE ensinou-me a prestar mais atenção aos números, a pensar melhor na forma como utilizo as horas do meu dia e a perceber que nem sempre fazer mais é a melhor solução.
Mas as maiores mudanças na minha maneira de pensar vieram da combinação entre o trabalho e aquilo que fui vivendo pessoalmente.
O divórcio, a vontade de estar mais presente na vida do meu filho, o objetivo de voltar a ter um espaço meu e a experiência de chegar a uma situação de esgotamento fizeram-me olhar para as minhas prioridades de outra forma.
Hoje, quero continuar a trabalhar e a construir a minha independência, mas sem voltar a colocar tudo o resto em segundo plano.
Porque, no final, não quero que o sucesso de um dia seja medido apenas pelo valor que aparece no ecrã do telemóvel.
Quero também poder olhar para a minha vida e sentir que estou a caminhar na direção certa.
E essa, para mim, é uma aprendizagem que vale muito mais do que qualquer número de viagens.